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O melhor do jazz em 2025: lançamentos, resgates e novos protagonistas

James Brandon Lewis / Douglas Mason/Getty Images
James Brandon Lewis / Douglas Mason/Getty Images

O ano de 2025 chega ao fim com o jazz mais vivo do que nunca. Da África, passando pela Europa e chegando às Américas, o gênero floresce com novos artistas e também com o fôlego de veteranos que parecem melhorar com o tempo. De estreias musicais a relançamentos improváveis, aqui estão alguns discos que contam a história do jazz no ano que termina; sem qualquer ordem de preferência ou cronologia, são álbuns que conservam o passado e apontam para o futuro de um estilo tão diverso quanto tradicional.


James Brandon Lewis – Apple Cores

O saxofonista de Nova York, que já tem 10 discos desde seu primeiro lançamento em 2010, passou a ser reconhecido como o grande talento que é recentemente. Foi laureado, este ano, com duas escolhas da DownBeat: artista do ano – pelo segundo ano seguido – e melhor saxofonista do ano.


Muito disso se deve a seu mais recente lançamento. Apple Cores é um disco dinâmico, urgente, com 11 músicas em que nenhuma passa dos 5 minutos. Sim, podemos dizer que é o punk do jazz. Ao lado do baixista Josh Werner e do baterista Chad Taylor, e, em algumas faixas, do guitarrista Guilherme Monteiro e do percussionista Stéphane San Juan, Brandon mostra que faz parte de uma geração de músicos que tem o jazz como veículo, mas não se importa de fazer desvios que acrescentam muito à sua música. Não é à toa que seu álbum anterior, lançado em 2024 pela Impulse Records, foi gravado ao lado do quarteto de pós-hardcore Messthetics, formado por ex-integrantes do Fugazi.


Apple Cores foi lançado pela Anti Records e mostra que a evolução de Brandon continua constante. Com composições improvisadas entre os três integrantes do trio, e apenas um cover, “Broken Shadows”, de Ornette Coleman, o disco aponta um caminho para um jazz que volta ao básico para se reinventar. Sem exageros, polido, pesado em alguns momentos, lírico em outros, é, sem dúvida, um dos discos essenciais do jazz de 2025.


Theon Cross – Affirmations

Theon Cross é londrino, filho de pai jamaicano e mãe natural de Santa Lúcia, uma pequena ilha das Antilhas, o que já entrega que, nas veias do músico, corre muito sangue caribenho. Outra particularidade é o instrumento que ele escolheu para expressar sua música: a tuba. São raríssimos os tubistas no jazz, e mais raros ainda os que se destacam como artistas solo. O som incomum do instrumento, quase como um canto de baleia debaixo do oceano, assusta, mas, quando domado, pode render coisa muito boa.


É o que podemos comprovar em Affirmations, terceiro e melhor disco do músico. Gravado ao vivo no clube Blue Note de Nova York, o disco duplo traz 12 músicas com uma banda afinada, incansável ao explorar as possibilidades do jazz e que carrega em sua forma de tocar a ancestralidade africana com a modernidade que cada um dos componentes da banda traz. No saxofone, quem brilha é Isaiah Collier, um dos gigantes do instrumento na atualidade, mas ainda completam a banda o guitarrista Nikos Ziarkas, com sua guitarra viajandona e distorcida, e o baterista James Russell Sims, que cria uma cama rítmica para as improvisações dos outros três.


O disco basicamente apresenta Theon ao mundo como líder, mas sua carreira já estava associada há algum tempo aos saxofonistas Shabaka Hutchings – ao integrar o fantástico trio Sons of Kemet – e a Nubya Garcia, onde também corre sangue caribenho e que é uma das grandes do jazz atual.


Affirmations explora todos os ensinamentos que o tubista aprendeu com seus companheiros de palco e estúdio, um som que é experimental, ousado, denso e não teme se arriscar. Os solos de Theon e Isaiah se cruzam e fazem voos perigosos, sem nunca perder a altitude, mas, principalmente, a atitude.


Ami Taf Ra / Foto: Getty Images


Ami Taf Ra – The Prophet and The Madman

Nascida no Marrocos, mas estabelecida em Los Angeles, a cantora Ami Taf Ra caiu nas graças do saxofonista Kamasi Washington, que produziu seu primeiro álbum, The Prophet and The Madman, cheio de referências às suas origens, mas que não deixa de absorver as influências do jazz moderno que muitos dos músicos que tocam nos discos de Kamasi trazem para sua estreia.


Em 11 faixas, o disco duplo traz um som cheio, com coros, muitos sopros e cordas em algumas das músicas, a exemplo da fórmula que o produtor já utilizou em alguns de seus trabalhos solo. Mas aqui, o aditivo é a voz de Ami, em canções que mostram estruturas e influências variadas. Algumas passeiam por um lado mais pop, outras assumem claramente um caráter mais experimental, e tem espaço até para o folk e o funk.No time de músicos, além de Kamasi, estão alguns dos colaboradores mais frequentes do saxofonista, como o tecladista Brandon Coleman, o baixista Miles Mosley, o trombonista Ryan Porter e o baterista Tony Austin, entre outros que fazem parte da nata da nova cena jazzística de Los Angeles.


Um disco e uma cantora que merecem atenção, que chegam com um som e uma voz cheia de personalidade, capaz de apresentar ecos que vão de grandes cantoras do jazz, do soul e do funk, podendo sair de Minnie Riperton e chegar a Betty Davis com naturalidade, mas sem perder sua personalidade própria. Um disco que, como seu som, cheio, preenche os ouvidos a cada audição.


Mike Clark – Itai Doshin

De groove e funk Mike Clark entende. Foi baterista do Headhunters, banda que se originou a partir do clássico disco de Herbie Hancock de 1973. Mas, em sua carreira solo, esse excelente baterista resolveu mostrar um outro lado, colocando suas baquetas a serviço do hard-bop e do post-bop, gravando discos que, não raras vezes, trazem como acompanhantes grandes figuras do jazz dos anos 1960 e 1970.


Itai Doshin é um deles. O título vem da crença budista de Mike e significa algo como “corpos diferentes, mente única”. Faz jus ao que se ouve: diferentes corpos tocando seus instrumentos em uma sintonia quase telepática, e, nesse caso, a telepatia musical que cada um dos integrantes da banda traz na bagagem de anos de estúdio e estrada. Além do baterista, complementam a banda a pianista Patrice Rushen, o trompetista Eddie Henderson, o baixista Henry Franklin e o saxofonista Craig Handy, o caçula do grupo.O som é de um disco de jazz para quem quer tudo que o gênero tem a oferecer. Belos solos, muita sintonia, composições próprias e algumas belas versões para alguns standards, entre eles “Cherokee” e “Epistrophy”.


Um disco que já se mostra atemporal, resgata o que precisa, sem gorduras e excessos, mas mantém a originalidade e personalidade do grupo. É como pousar naquela cidade que conhecemos bem, mas que sempre nos renova em algo quando a visitamos.



Dom Salvador – Jazz Is Dead 24

Não poderia faltar um brasileiro na lista. O selo Jazz Is Dead, de Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad, já demonstrou seu amor pela música brasileira diversas vezes. Lançou discos inéditos de João Donato, Marcos Valle, Azymuth, Hyldon e outros. Um que não poderia ficar de fora é o pianista Dom Salvador, que finalmente ganhou sua edição pela gravadora neste ano.


O pianista, pioneiro do samba jazz e do jazz brasileiro, que vive há anos nos EUA, aos 87 anos lança um ótimo álbum. O disco olha pelo retrovisor ao explorar as diferentes vertentes às quais o pianista se dedicou ao longo de sua carreira. Assim, tem desde a calmaria acústica de “As Estações” até o balanço de “Safira”, com seu justo tributo ao samba.


Algumas das canções são apenas instrumentais; outras contêm vocais, geralmente corais, com letras que estão ali mais com a intenção de fazer parte da musicalidade do álbum do que realmente passar uma mensagem. Mas tudo funciona em nove faixas que mostram que a idade se torna sabedoria em músicos de talento.


Relançamentos

Grandes gravadoras, como Blue Note e Impulse, relançam com certa frequência seus clássicos, mas, recentemente, elas ganharam versões mais cuidadosas e de discos que eram mais obscuros em seus catálogos. Mas o que interessa aqui é que, justamente, alguns lendários selos menores ganharam reedições oficiais e com o capricho que merecem. Em 2025, discos que estavam há muito tempo fora de catálogo, cujos originais tinham o preço de uma pequena coleção, voltaram às lojas.


A grande vencedora dos pequenos grandes resgates é a Muse, gravadora com um catálogo extenso entre os anos 1970 e 1980, que vem ganhando ótimas edições de diferentes fontes. Pela Time Traveler Records foram relançados três dos melhores títulos da Muse nos anos 70. The Free Slave, do baterista Roy Brooks, originalmente lançado em 1972, traz Woody Shaw no trompete, George Coleman no sax tenor, Hugh Lawson no piano e Cecil McBee no baixo, apresentando uma paulada entre o hard-bop, o post-bop e já encaminhando para uma poderosa pegada funk.


Sunset at Dawn, do pianista Kenny Barron, é de 1973 e tem Bob Cranshaw no baixo elétrico, Freddie Waits na bateria e Richard Landrum e Warren Smith na percussão. No disco, Kenny parte para o piano elétrico na maioria das músicas e explora uma sonoridade mais complexa e sofisticada, que combina as texturas eletrônicas do Rhodes de Barron com a forte presença das percussões.


Outro destaque é do saxofonista panamenho Carlos Garnett, que tocou com Miles Davis no início dos anos 1970. Cosmos Nucleus é um dos cinco incríveis álbuns que ele lançou pela Muse entre 1974 e 1977. O disco, de 1976, já entrega pela capa o som que apresenta: um spiritual jazz regado a funk, psicodelia e ritmos latinos, com um time de músicos afinados que tem, entre seus nomes, Cecil McBee Jr., filho do grande baixista, assumindo também o baixo — nesse caso, o elétrico.


O pianista Kenny Barron / Foto: Shutterstock


Também originalmente lançado pela Muse, mas reeditado pela Craft Records na série Jazz Dispensary, está o segundo álbum da banda Catalyst, Perception, de 1973 e nunca relançado. Uma obra-prima do jazz-funk, com fortes ecos de spiritual jazz, o álbum traz o quarteto formado por Odean Pope nos sopros, Eddie Green nos teclados, Tyrone Brown no baixo e Sherman Ferguson na bateria, acrescido de outros músicos, como o pioneiro dos sintetizadores Pat Gleason em quatro faixas, com grooves pesados e solos inspirados.


Ainda pela mesma série e gravadora, 2025 ganhou a reedição de um dos melhores discos do saxofonista Joe Henderson. Multiple, também de 1973, traz o grande músico em sua melhor fase, a dos discos lançados entre o final dos anos 1960 e até meados de 1970 pela Milestone Records. Spiritual jazz, post-bop, fusion — tudo se mistura de maneira nada óbvia em uma banda que reúne nomes como Dave Holland no baixo, Jack DeJohnette na bateria, Larry Willis nos teclados e ainda o guitarrista James “Blood” Ulmer.


Na onda de relançamentos, outro destaque é o trabalho da Mack Avenue, que trouxe de volta, em reedições caprichadas, alguns discos de um dos selos mais admirados e desejados pelo fã de jazz: o lendário Strata East. Fundado no início dos anos 1970 pelo trompetista Charles Tolliver e pelo pianista Stanley Cowell, o selo deu total controle criativo aos artistas. Lançou desde principiantes até veteranos que nunca tiveram a oportunidade de mostrar realmente sua música. O resultado são alguns dos melhores discos de jazz da história.


Entre os que ganharam reedição vale destacar A Spirit Speaks, do The Descendants of Mike and Phoebe, do baixista Bill Lee – pai do cineasta Spike Lee –, que reúne um jazz inclassificável com influências que vão do funk ao gospel e passam até pela opereta. Outro é o explosivo Live at Slugs, de Charles Tolliver e seu quarteto de spiritual jazz que caminha para o post-bop, com Stanley Cowell no piano, Jimmy Hopps na bateria e Cecil McBee no baixo.


Aliás, é do baixista o disco Mutima, que também ganha reedição e traz McBee mostrando sua versatilidade em um dos melhores discos do selo. Two Is One, do saxofonista Charlie Rouse – conhecido por sua parceria por anos com Thelonious Monk –, é outro destaque. Traz o músico em uma personalidade própria, unindo o hard-bop a uma pegada mais funk e fusion.


Izipho Zam, de Pharoah Sanders, é um dos melhores discos da longa carreira do saxofonista de spiritual jazz. Gravado entre seus discos pela Impulse no início dos anos 1970, é música e prece ao mesmo tempo. Para finalizar, há Music Inc., disco que inaugurou o selo, com a maravilhosa big band de Charles Tolliver, que reúne diversos dos músicos que lançariam suas obras pela Strata East.



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