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Hardbop: o que é, como nasceu e por que mudou o rumo do jazz nos anos 1950

Sonny Rollins / Foto: Catwalker/Shutterstock
Sonny Rollins / Foto: Catwalker/Shutterstock

Durante os anos 1950, quando o cool jazz propagado por Miles Davis e por diversos músicos brancos da Costa Oeste já estava plenamente assimilado, os bopers reagiram com força e encontraram um novo rumo para o jazz, que agora enfrentava a concorrência crescente do rock ‘n’ roll.


As experiências fundamentais já haviam sido absorvidas pela música moderna. Não era mais novidade fundir jazz com música erudita ou explorar a fundo as escalas do blues. O pianista Dave Brubeck, por exemplo, já havia experimentado compassos inusitados — como a valsa em 3/4 — e estava pronto para arriscar peças em 7/4, que mais tarde consideraria “decepcionantemente simples”, segundo suas próprias palavras.


O caminho mais promissor parecia ser revisitar o que de melhor havia sido feito no passado e aplicar uma nova paleta sonora. Os discípulos de Charlie Parker, apaixonados pelo jazz hot, trouxeram à tona o hardbop — um desdobramento do bebop, porém mais funky, melódico e acessível.


Art Blakey e o espírito dos Jazz Messengers

Em 1955, o baterista Art Blakey (1919-1990), adepto da polirritmia herdada do bebop, fundou o Jazz Messengers, grupo que unia o peso emocional do blues à energia arrebatadora da música gospel, sem abandonar a ousadia improvisatória dos anos 1940.


Blakey iniciou sua trajetória como pianista, mas, impaciente para estudar escalas, perdeu o posto para o jovem e ainda desconhecido Erroll Garner. Para não perder também o emprego no bar onde tocava, aceitou a sugestão do gerente e migrou para a bateria — escolha que mudaria sua vida.


Assim como Miles Davis, tinha o dom de formar equipes brilhantes. Sob sua liderança, despontaram grandes nomes do hardbop, como os pianistas Horace Silver e Bobby Timmons, os trompetistas Lee Morgan e Donald Byrd, e o saxofonista Hank Mobley.


Do gospel ao soul e o impacto de Ray Charles

O reaproveitamento da estética gospel no auge do hardbop se entrelaçou naturalmente com a formação da música soul — “a música que vem do fundo da alma” — definição que incomodava o pianista cego Ray Charles (1932-2004), um de seus maiores expoentes. As interpretações apaixonadas de Charles indicavam que o jazz estava diante de um dilema: ou se reinventava, ou perderia espaço para o fenômeno Elvis Presley, que atraía a juventude e canalizava parte da energia antes destinada ao jazz.


Cannonball Adderley / Crédito: Michael Ochs/Getty Images
Cannonball Adderley / Crédito: Michael Ochs/Getty Images

Cannonball Adderley e o jazz para o grande público

Outro nome marcante foi o saxofonista Julian “Cannonball” Adderley (1928-1975). Depois de aprender intensamente ao lado de Miles Davis, seguiu carreira própria com o irmão Nat, criando um quarteto que misturava gospel, blues, pitadas de rock e o bebop que absorveu ouvindo Charlie Parker. Críticos puristas o acusavam de “vender” o jazz para o público, mas Cannonball rebatia dizendo que tinha a sorte de tocar o que amava e, ao mesmo tempo, conquistar multidões.


Confusões de rótulo e nomes que desafiam classificações

A efervescência dessa fase levou a equívocos de classificação. Músicos do hardbop eram frequentemente confundidos com representantes da escola cool. Por exemplo: por tocar com Dave Brubeck, o baterista Joe Morello foi visto por muitos como adepto de uma sonoridade suave — quando, na verdade, era um dos bateristas mais incendiários da época.


O saxofonista Dexter Gordon (1923-1990) também sofreu com rótulos equivocados: apenas por ter nascido na Califórnia, associavam-no ao cool jazz, quando seu som áspero tinha muito mais em comum com o bebop.


O baixista Charles Mingus (1922-1979), por sua vez, era inclassificável. Admirador de Duke Ellington, escrevia tanto para pequenos grupos quanto para big bands, explorando do jazz modal ao experimentalismo que abriria caminho para o free jazz. Sua obra-prima, The Black Saint and the Sinner Lady (1963), fundia estilos com ousadia e refletia sua própria vida intensa — narrada na autobiografia Beneath the Underdog.


Rollins, Coltrane e o impulso criativo

O sax-tenor Sonny Rollins (n. 1930) transitava entre o complexo e o minimalista, misturando música caribenha, sul-americana e blues. Em 1959, retirou-se temporariamente para estudar na Ponte Williamsburg, em Nova York, e voltou dois anos depois ainda mais inventivo.


John Coltrane (1926-1967), após um período de dependência química, renasceu artisticamente e liderou um quarteto histórico com McCoy Tyner, Elvin Jones e Steve Davis. Seus álbuns Giant Steps (1959) e My Favorite Things (1960) revelaram uma nova abordagem, incorporando blues, escalas orientais, influências africanas e música modal.


Assim como Parker, Coltrane formou uma legião de seguidores, impressionando pela velocidade e precisão com que explorava as possibilidades do sax tenor — criando o famoso efeito sheets of sound (“camadas de som”). Como disse o crítico Nat Hentoff, citando um colega jornalista:

“De Coltrane, só se pode esperar o inesperado.”


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