Coisas Supremas une duas obras-primas do jazz em uma apresentação
- Alexandre Duarte

- há 3 dias
- 9 min de leitura

Em 1965, o Brasil passava pela sua primeira prova do que se concretizaria como um período de ditadura militar que se estenderia por cerca de 20 anos. Foi o ano em que se promulgou o AI-2, que acabou com o sistema pluripartidário, caçou partidos políticos e instaurou um modelo de dois partidos que afrontava a democracia e os direitos políticos de muita gente. Era o primeiro passo para o AI-5, que instauraria a ditadura militar por completo no país. Também foi o ano do surgimento da Jovem Guarda, quando Roberto, Erasmo e Wanderléia iniciaram sua escalada para o sucesso em um programa na TV Record. Ainda na música, e também na TV Record, a MPB se consagrava com a apresentação do Festival da Música Popular Brasileira, abrindo caminho para o surgimento de Elis Regina, Chico Buarque, Gil e Caetano, entre muitos outros. Em outra ponta, nascia a TV Globo, que anos depois desbancaria a hegemonia da Record.
Nos Estados Unidos, o ano de 1965 marcava o fortalecimento do movimento pelos direitos civis, impulsionado, principalmente, pelo episódio que ficou conhecido como Domingo Sangrento, quando manifestantes que marchavam pacificamente da cidade de Selma para Montgomery, no Alabama, foram brutalmente atacados pelas autoridades. Também foi o ano da assinatura da Lei de Direito ao Voto, que proibia a discriminação racial no processo eleitoral norte-americano. A guerra do Vietnã completava 10 anos, com um aumento das críticas internas ao governo, reflexo do crescente envolvimento dos jovens com a contracultura. Foi também o ano em que Bob Dylan sepultou o movimento folk ao empunhar uma guitarra no Newport Folk Festival com uma banda barulhenta que preconizava o rock de garagem.
1965 também foi o ano em que duas obras fundamentais da história do jazz foram lançadas, cada uma à sua maneira, condensando os conceitos sonoros de músicos únicos, vozes originais que, apesar da distância, miravam um mesmo horizonte: o diálogo com a diáspora africana, o resgate das origens de todo um povo e a experimentação com esse passado apontando para um futuro. Coisas, de Moacir Santos, e A Love Supreme, de John Coltrane, são obras que reverberam até hoje e ainda se mostram inesgotáveis.
São justamente os dois álbuns, que completaram 60 anos em 2025, que ganharam homenagem em um show realizado no Sesc Jazz do ano passado e que será reapresentado no próximo dia 31 de março no Sesc Consolação. A tarefa de fazer uma releitura desses pesos-pesados da música mundial e ainda fundi-los ficou a cargo do trombonista Allan Abaddia, que tem intimidade com as obras e reconhece pontos de semelhança. “Eu acho que os elementos da diáspora estão em constante diálogo. Trazer Coltrane, Moacir Santos — eles são contemporâneos, nasceram no mesmo ano, lançaram essas obras no mesmo ano e, curiosamente, as duas obras são definidas por número; no caso do Coltrane, são os subtítulos dessas músicas”, observa o músico.
Moacir Santos nasceu em Pernambuco e Coltrane na Carolina do Norte, ambos em 1926. Além dessa coincidência, outra marca a carreira dos dois: escolheram o saxofone como instrumento principal. Mas, além disso, há uma busca por uma liberdade que vai além da concreta, que se consolida com a liberdade artística e espiritual que marca as duas obras. Como observa Allan, “acho que esse caminhar do negro na diáspora é um eterno desejo à liberdade. Seja ela artística, seja ela cultural, seja ela social”.
Cada um à sua maneira, tanto Moacir Santos quanto John Coltrane desenvolveram uma carreira que foi crescendo, graduando-se até atingir seu clímax em Coisas e A Love Supreme, ainda que depois ambos seguissem gravando. Moacir gravou pouco, trabalhando mais como arranjador, mas qualquer um de seus três discos gravados pela Blue Note, com o músico já morando nos EUA, vale muito a audição. Já Coltrane foi por um caminho mais radical e trágico. Apenas dois anos após o lançamento de A Love Supreme, o músico morreu acometido de um câncer, mas deixou um legado gigante em qualidade e quantidade — a ponto de até hoje aparecerem registros inéditos, inclusive versões ao vivo e outtakes de sua principal obra. Sua música foi caminhando para um lado mais próximo do free jazz, englobando cada vez mais elementos africanos e percussivos.

CD Coisas, de Moacir Santos
Essa trajetória tornou-se obrigatória para qualquer músico instrumental brasileiro. “Os dois eu toco há mais de 20 anos. Coltrane, no estudo da música instrumental, é obrigatório, é objeto de uma pesquisa muito intensa pra quem é instrumentista. E o Moacir Santos, em 2004, antes de lançar O Ouro Negro, foi dar um workshop na antiga ULM. Conheci ele pessoalmente e fiquei muito impactado com a música dele. E daí foi uma coisa que eu vim mergulhando ao longo dos anos, mesmo, na obra dele. Aí, na pandemia, eu resolvi fazer uma pesquisa bem aprofundada que resultou na defesa da minha dissertação de mestrado, que também é sobre o disco Ifé. Tenho tocado a música dele em praticamente todos os shows, e Coltrane também, não em todos os shows, mas é muito constante a obra dele”, conta Allan.
Coisas, de Moacir Santos, foi gravado entre os dias 23 e 25 de março de 1965 e lançado no mesmo ano. Saiu pelo selo Forma, do visionário Roberto Quartim, e foi registrado nos estúdios da RCA Victor. O álbum colocou a música brasileira e a música de inspiração afro-brasileira em um status que ela não tinha. Era sinfônica, sofisticada e, ao mesmo tempo, bebia na tradição de um amálgama de gêneros que atravessava fronteiras. Tinha a raiz africana, a nordestina, da terra natal do compositor; tinha as inovações da bossa nova e do samba-jazz; tinha os arranjos rebuscados de orquestras como a de Duke Ellington; e tinha os ritmos de orquestras brasileiras como a de José Prates. É um álbum que une tudo isso para justamente se distanciar de tudo isso e apresentar algo completamente original e novo. O impacto de Coisas não foi sentido de maneira tão imediata, mas abriu os ouvidos do mundo à música e a seu autor, que se viu acompanhando músicos de jazz nos estúdios norte-americanos, tendo suas músicas gravadas e admiradas, e gravando seus próprios discos acompanhado por bandas cheias de estrelas do gênero.
“Na minha visão, o Coisas é a materialização de uma pesquisa e de musicalidades que o Moacir Santos já estava usando”, observa Allan. “Coisas é um compilado de diversas coisas que ele trouxe em vários arranjos que escreveu ao longo da carreira antes do Coisas. Ele conviveu com Pixinguinha, sendo encarado quase como folclorista; conviveu com Abigail Moura, que teve a Orquestra Afro-Brasileira, e foi considerado música folclórica. São linguagens muito similares às que o Moacir Santos traz. Ele cair num lado de música religiosa ou de folclorista é um pulo. Penso o quanto ele precisou ser cuidadoso ao compor o Coisas para não ser mal-entendido ou para não cair num lugar de estereótipo. Em 1962, ele compôs a trilha do Ganga Zumba, do Cacá Diegues, e nessa você vê a música carregada de atabaques, de tambores, de elementos religiosos. Ele comeduiu esses elementos ao gravar o Coisas, para que fosse reconhecido pela sofisticação. Sofisticação essa que eu acredito muito que está nos tambores também, mas, se ele gravasse com muito mais tambores naquela época, ia virar um grupo folclórico, como a gente vê diversos na história do país.”
"Eu acho importante a gente trazer a evolução dessa discussão, do que significa a figura de um homem negro na sociedade hoje e o que significava 60 anos atrás"
Allan Abbadia
Coltrane começou a chamar atenção ainda quando tocava na orquestra de Dizzy Gillespie. Fruto da revolução inaugurada pelo bebop, o saxofonista em breve mergulharia no jazz modal e no hard bop. Aprendeu muito fazendo parte das bandas de Miles Davis e Thelonious Monk e, nessa época, deu seus primeiros voos como líder de banda. A percepção de que ali havia um talento diferente começou com Blue Train, de 1958, lançado pela Blue Note — gravadora que também lançou discos de Moacir Santos. Em sua fase no selo Atlantic, a impressão sobre o surgimento de um saxofonista sem concorrência começou a se fortalecer, principalmente em Giant Steps e My Favorite Things, que basicamente resgatou o sax soprano para o jazz.
Na Impulse, durante anos, Coltrane manteve um quarteto que se tornou clássico, com McCoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no baixo e Elvin Jones na bateria, formando uma unidade que poderíamos descrever como telepática, espíritos ligados na busca de um mesmo som, o som de Deus. Essa trajetória foi essencial para resultar em A Love Supreme, tanto que, mesmo com participações de Archie Shepp em um segundo sax tenor e Art Davis em outro baixo, os takes escolhidos para entrar no álbum foram os do quarteto.
Gravado em 9 de dezembro de 1964, o álbum foi lançado em janeiro de 1965 e seria o último ano completo em que o lendário quarteto tocaria junto — eles se separariam em 1966, com Coltrane buscando um caminho ainda mais experimental e radical para sua música. Composto como uma suíte em quatro partes, A Love Supreme é uma catarse espiritual, uma oração musical que une religiosidade e sonoridade ocidental e oriental em uma referência ao mesmo criador. Mais do que pela música, Coltrane passa isso na oração escrita estampada na parte interna da capa do disco. Foi o primeiro álbum da gravadora Impulse a quebrar o padrão das lombadas pretas e laranjas, trocando o laranja pelo branco, algo que se repetiria mais tarde em outro disco do saxofonista, Kulu Sé Mama, que traz uma lombada preta e vermelha. A música, que começa com uma levada marcada pelo baixo de Jimmy Garrison, vai ganhando conteúdo e profundidade ao longo das suas quatro partes, com a bateria de Elvin Jones criando uma atmosfera rítmica que preenche como uma onda por trás dos solos de Tyner e, claro, Coltrane em uma de suas fases mais inspiradas.
“O A Love Supreme é uma quebra, uma linha que ele estava seguindo. O Miles traz muito isso, também quando a gente ouve Charlie Parker tem isso. As notas, as escalas ali, elas são o que dão vida à música, mas o que interessa mesmo é o que fez ele tocar aquelas notas, o porquê de ele ter colocado aquelas notas, o porquê de ter colocado aquela estética. Daí isso é o que vejo muito na relação entre Moacir Santos e Coltrane: o que eles queriam dizer, eles estavam buscando a mesma coisa”, reflete Allan sobre o que liga Coisas à obra de Coltrane.

A ousadia de tocar as duas obras em uma mesma apresentação oferece um desafio complicado. Dois álbuns tão referenciados já foram homenageados incontáveis vezes das mais diversas formas. Coisas teve diversas de suas músicas gravadas ao longo dos anos. Logo após seu surgimento, as composições do disco tornaram-se algumas das favoritas de muitos músicos do samba-jazz. Mais do que isso, o próprio Moacir recriou algumas dessas músicas de maneiras bem diferentes das originais em álbuns que gravou mais tarde.
Já o disco de Coltrane tornou-se um standard a ponto de se transformar em uma influência além da própria música. Não é raro encontrar músicas que são homenagens à obra sem ser exatamente um cover, a ponto de se chegar à gravação unicamente da oração que vem escrita na capa, recitada e musicada pela excelente cantora norueguesa Karin Krog. Além do jazz, o disco influenciou artistas que vieram de outros gêneros, tendo seu exemplo comercialmente mais bem-sucedido no disco Love Devotion Surrender, uma colaboração entre os guitarristas Carlos Santana e John McLaughlin, que dão uma roupagem jazz-rock à primeira peça de A Love Supreme. Outro músico brilhante que se apresenta no Sesc Jazz, o percussionista Kahil El’Zabar, também detém uma das muitas homenagens à criação de Coltrane em Sketches of A Love Supreme, em que parte da base da música original para torná-la uma composição própria.
Nesse contexto de duas obras seminais de dois músicos geniais, que já foram tão homenageados por outros músicos brilhantes, surge o obstáculo de trazer algo diferente ao tocar essas músicas. “Eu acho importante a gente trazer a evolução dessa discussão, do que significa a figura de um homem negro na sociedade hoje e o que significava 60 anos atrás. Entender que eles fizeram essas obras com inúmeras restrições sociais. Esse show é um pouco sobre isso, sobre atualizar as liberdades conquistadas socialmente ao longo dos anos. E, quando a gente olha para esses artistas, é importante trazer também essa atualização estética e de discurso mesmo”, finaliza Allan, que para o show preparou, além das versões, uma obra nova inspirada nos dois discos clássicos.
Depois de 60 anos, tanto Coisas quanto A Love Supreme continuam inspirando e ensinando músicos e ouvintes do mundo todo. São obras que atingiram um valor que não se limita apenas ao que foram naquele momento. Elas se expandiram ao que são hoje e, mais do que isso, aos voos que poderão alçar no futuro. As obras-primas jamais se bastam, jamais se limitam; são como água na palma das mãos: transbordam para continuar lavando nossas almas.





Comentários