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Joabe Reis lança “Drive Slow” e reafirma sua identidade no jazz brasileiro

A saxofonista Sintia Piccin / Foto: divulgação
A saxofonista Sintia Piccin / Foto: divulgação

Tem alguma coisa na água corrente de Cachoeira de Itapemirim. A água tem música, e como todo líquido, ela escorre por todos os lados. É indomável, mas pode ser colocada em um copo para nos servir. A cidade já nos deu o rei Roberto Carlos, seu rock nacional e a música romântica. Na contramão disso, se nos deu o bendito, também nos deu o maldito Sérgio Sampaio, que botou o bloco na rua e rendeu uma carreira errática em meio a músicas e discos geniais.


Mas, nas águas dessa cachoeira, também corre o jazz com sua torrente cheia de desvios, virtuosismo e improvisação. É também da mesma cidade o trombonista Joabe Reis, que está lançando seu novo álbum Drive Slow – A Última das Fantasias.


Joabe é o idealizador de um dos projetos mais integradores e importantes do atual cenário do jazz brasileiro, a Deja Vu Sessions, que ocorre mensalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro e agora desembarca em outros estados, sempre levando uma roda de instrumentistas e cantores convidados, nacionais e internacionais, onde todo mundo que se banha na água jazzística é bem-vindo.


Batemos um papo com o músico, que também trabalha com a curadoria do festival Jazz na Serra, para falar sobre o projeto, o novo disco, suas influências, o trabalho de curador e muito mais.


Para começar, conta um pouco da sua trajetória. Como você entrou na música e chegou ao jazz e ao trombone?

Eu sou natural de Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Espírito Santo. Lá em casa sempre teve muita música. Meus pais ouviam muitos discos, principalmente gospel por causa da igreja que eles frequentavam, e minha tia já gostava de ouvir outras coisas, como Roberto Carlos e Chico Buarque. Então eu cresci em um ambiente muito musical.


Quando eu tinha entre 9 e 10 anos, meu irmão mais velho, o Wilson, começou a estudar teoria musical na escolinha da igreja. A gente ia com meus pais e ele se interessou. Pouco tempo depois eu também entrei na escolinha de música. Ali foi meu primeiro contato direto com o estudo musical, embora a música já fosse algo muito presente na nossa casa.


Aos 10 anos eu comecei a estudar teoria de verdade, mergulhar mesmo. E aí fui descobrindo os instrumentos e as possibilidades que a música trazia. Meu primeiro instrumento não foi o trombone, foi o saxofone, que é bem comum em banda. Meses depois, o maestro pediu para eu tocar bombardino, outro instrumento típico de banda marcial. Nessa época eu já tocava na banda Lira de Ouro da cidade.


Menos de um ano e meio depois, já atuando como instrumentista iniciante, o maestro pediu que eu fosse para o trombone porque a banda estava precisando. Eu fui meio contra a vontade, mas levei o instrumento para casa. Depois de três ou quatro meses praticando, acabei me apaixonando por ele.


E aí corta para cerca de um ano depois. Eu tinha 13 anos quando meu primo, o Marquinhos, que é um pouco mais velho que eu, me chamou para gravar em um estúdio. Foi meu primeiro contato profissional: entrar num estúdio, gravar, receber cachê. Ali começou de fato minha carreira e eu decidi que era isso que eu queria fazer para o resto da vida.


Dali em diante muita coisa aconteceu. Eu tinha 13 anos, isso era 2004. Em 2006, minha família se mudou para Vitória, a capital. Lá minha relação com a música ficou mais profissional, atuando com bandas locais, artistas e nos estúdios da cidade. E isso abriu o caminho para tudo que viria depois.


Quando você decidiu se dedicar integralmente à carreira autoral?

Durante muitos anos minha carreira foi híbrida. Eu trabalhava em estúdio, acompanhava artistas e, ao mesmo tempo, mantinha meu projeto autoral. Mas eu sempre senti que, em algum momento, precisaria fazer uma escolha, porque meu trabalho próprio foi crescendo cada vez mais. No final de 2024 tomei a decisão definitiva. Deixei todas as turnês e todos os trabalhos como sideman, com artistas como Luedji Luna, Anitta e Gloria Groove, para me dedicar 100% à minha música.


Agora, 2025 é o meu primeiro ano totalmente autoral. Hoje meus projetos principais são meus shows solo, a Deja Vu Session, a RJ Jazz Collective e eventos como o Soul Trainer Experience. Está sendo um ano desafiador, mas muito recompensador artisticamente.


Joabe / Foto: Thais Vandanezi


Você já tocou com muitos nomes importantes. Quais experiências mais marcaram você?

Foram muitas. Tocar com artistas como Ivan Lins, Thiago Iorc, Iza, Alcione, Luedji, Anitta e Gloria Groove me deu uma visão ampla de palco, de repertório, de linguagem e de profissionalismo. Com artistas internacionais, como Macy Gray e Shawn Mendes, vivi estruturas maiores e modos de trabalho diferentes, o que ampliou ainda mais minha percepção.


Também tive a alegria de colaborar com músicos lendários do jazz, como Bob Mintzer, algo enorme para mim, vindo do interior do Espírito Santo.


Mas um ponto crucial foi 2023, quando fui para Los Angeles gravar com a banda californiana Family Company. Passei uma semana compondo e gravando com músicos de altíssimo nível e fui coautor de todas as faixas. Essa imersão me marcou profundamente.


E tem algo simbólico: ver artistas como Seu Jorge e Paula Lima participando de eventos meus, como a Deja Vu. São pessoas que eu cresci ouvindo e que hoje aparecem em projetos meus. Isso tem um peso emocional muito grande

.

Você tem viajado bastante. O que essas experiências internacionais acrescentam à sua música?

Acrescentam muito. Viajar é um grande laboratório. Londres, por exemplo, tem sido uma referência forte para mim. Este foi meu segundo ano tocando lá e fiz um show sold out no Ronnie Scott’s, uma das casas de jazz mais respeitadas do mundo. Sentir a resposta do público londrino foi especial.


A cada viagem eu observo nuances culturais: como eles tocam groove, funk, jazz; como entendem improvisação; como organizam a musicalidade coletiva. O funk americano de Los Angeles, por exemplo, tem um sotaque completamente diferente do que fazemos no Brasil.


Essa observação constante me alimenta muito. Sempre volto com ideias, texturas, ritmos e novas formas de pensar arranjos.


Ao mesmo tempo, fora do Brasil as pessoas reconhecem rapidamente a brasilidade no meu som: no jeito de tocar, no swing, na fluidez da improvisação, no diálogo entre os instrumentos. Essa troca é algo que me interessa muito — levar nossa identidade para fora e trazer influências de volta.


Como surgiu a Deja Vu Session e qual seu papel hoje na cena?

A Deja Vu Session nasceu em 2022, mas sua origem simbólica está lá no início dos anos 2000. Existia uma festa muito importante em São Paulo, na Matilha Café, liderada pela banda Grooveria, do meu amigo Tuto Ferraz. Eu acompanhava tudo pela internet quando era adolescente. Achava mágico: banda 360º, convidados surpresa, artistas incríveis aparecendo, como Seu Jorge, Paula Lima, Jairzinho e Simoninha.


Quando entrei na Grooveria em 2014, contei ao Tuto o quanto aquele movimento tinha me inspirado.


Anos depois, quando decidi criar minha jam, eu quis homenagear aquela época e trazer de volta esse formato de celebração coletiva. Por isso o nome Deja Vu — é como reviver um momento que eu não vivi presencialmente, mas que marcou muito minha formação estética.


Hoje a Deja Vu é um dos eventos mais importantes da música instrumental brasileira. É um espaço de encontro entre músicos consagrados e jovens talentos. Já passaram por lá artistas como Seu Jorge, Paula Lima, Marco de Castro, Liniker, Lianne La Havas e Ayo, sempre em um clima de troca e espontaneidade.


Esse ambiente gera um impacto real. Músicos mais jovens assistem, se inspiram e saem com vontade de estudar e produzir. Criar essa atmosfera é, para mim, uma forma de devolver à cena tudo o que recebi.


A baixista Manu Vincenzi


Como está a cena instrumental brasileira hoje?

A cena instrumental funciona por ciclos. Existem períodos com muitos espaços para tocar e outros em que casas fecham ou curadorias mudam, diminuindo as oportunidades. Mas hoje eu sinto uma retomada importante, especialmente em São Paulo. Espaços culturais estão voltando a incluir música instrumental em suas agendas e festivais estão buscando mais diversidade sonora.


Em 2024 toquei no Rock in Rio. Fui o primeiro trombonista a fazer um show solo no festival. Também toquei no The Town. Isso mostra como grandes eventos estão começando a valorizar o instrumental. Ainda é um nicho pequeno, pouco explorado por gravadoras, mas vem crescendo.


A Deja Vu também contribui para isso, porque virou um ponto de encontro do mercado. Produtores, curadores e profissionais de labels vão com frequência para acompanhar o movimento mais de perto.


Como funciona o seu processo de curadoria?

É um processo complexo porque o Brasil é extremamente rico musicalmente. Existem muitos artistas e projetos autorais de altíssimo nível.


Quando faço curadoria, como no Jazz na Serra, eu preciso equilibrar nomes consagrados com artistas em ascensão. Já trouxe Salomão Soares e Vanessa Moreno, que hoje estão em turnê pela Europa, e também Hamilton de Holanda, uma referência mundial.


Ao mesmo tempo, faço questão de abrir espaço para quem está chegando, como a saxofonista Cynthia Piscine, que tem um trabalho autoral muito forte.


A curadoria exige acompanhar o que está acontecendo no mercado, entender o público local, manter o nível artístico alto e, principalmente, dar oportunidade. Eu também precisei de portas abertas no começo e eu nunca esqueço disso.


Quais são suas principais referências musicais, especialmente no jazz e no trombone?

Minha maior referência é Miles Davis. Ele revolucionou o jazz ao incorporar elementos da música pop, soul e eletrônica. No começo foi criticado, mas hoje entendemos a importância dessa ousadia e o quanto ele abriu caminhos para a liberdade estética que existe no jazz contemporâneo.


No trombone, minhas referências fundamentais são J.J. Johnson, que ouvi pela primeira vez aos 11 anos, e Raul de Souza, o maior trombonista brasileiro de todos os tempos. A trajetória do Raul me inspira muito, pela força, pela originalidade e pela carreira internacional.


Também tenho o privilégio de conviver com trombonistas que admiro profundamente, como Elliot Mason, Marshall Gilkes e Robin Eubanks. São músicos entre os maiores do mundo e ter o reconhecimento deles é algo que eu jamais imaginaria no início da minha carreira.


Para encerrar: o que você pode adiantar sobre o novo álbum?

Esse novo disco é o projeto mais ousado e mais elaborado da minha vida. Estou unindo elementos de trap, funk carioca, R&B, neo-soul, house, música eletrônica e UK Garage, sempre em diálogo com jazz, improvisação e música brasileira.


Simbiose, o single, já mostra essa proposta. Ele mistura referências londrinas com melodias brasileiras e citações sutis ao jazz clássico.


O álbum tem sete faixas instrumentais e quatro participações vocais, com artistas que admiro muito, como Bia Ferreira, Gabriela Câmara, Eloá Holanda e Zildzila.Estou trabalhando nele há mais de um ano e meio, buscando timbres, criando do zero, testando sonoridades e construindo um universo musical próprio, sem tentar reproduzir nada que já existe.


É um disco de risco, mas também de muita verdade artística. Estou muito ansioso para compartilhar.


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