O dia em que o jazz se libertou: Ornette Coleman, Coltrane e a era do Avant-Garde
- Vinicius Mesquita

- 7 de jan.
- 3 min de leitura

Um saxofonista franzino chamado Ornette Coleman já havia explorado tudo o que aprendera com Charlie Parker e Miles Davis e, ainda assim, não se dava por satisfeito. Buscando liberdade absoluta, Coleman queria transitar de clave para clave sem aviso, ignorar padrões e sinais de tempo, deixando apenas os ouvidos como guias.
Em 1959, ao lado do trompetista Don Cherry, do baixista Charlie Haden e do baterista Billy Higgins, gravou o clássico The Shape of Jazz to Come e, poucos meses depois, Change of the Century. No ano seguinte, ousou ainda mais com Free Jazz, reunindo dois quartetos tocando simultaneamente. De um lado do estúdio, Coleman, Cherry, o baixista Scott LaFaro e Higgins; do outro, o saxofonista e clarinetista Eric Dolphy, o trompetista Freddie Hubbard, Haden e o baterista Eddie Blackwell. Em perfeita sintonia, os oito aboliram convenções e contrapuseram estilos, criando uma música abstrata, expressionista e impossível de ser reproduzida.
Seguindo um caminho igualmente experimental, mas respeitando alguns fundamentos da teoria musical, John Coltrane levou seu jazz avant-garde ao auge com A Love Supreme (1964). Sua liberdade não era caótica como a de Coleman, mas chocava por rejeitar tonalidades e padronizações rítmicas e, ainda assim, soar clara e envolvente. Misteriosamente popular, vendeu 500 mil cópias em um ano — um feito raro para um disco de jazz.
A gravação marcou uma nova fase na vida de Coltrane, que tentava novamente abandonar drogas e álcool por meio da fé e da espiritualidade. Miles Davis dizia que o álbum resumia “com perfeição o orgulho negro”.
Era o momento exato para uma obra como essa. Poucos anos antes, a segregação racial começava a ruir com a unificação do transporte público e a obrigatoriedade da integração escolar. Mas as mudanças geraram protestos, atentados e assassinatos, sobretudo no sul dos EUA. Já nos anos 1960, a geração hippie pregava amor livre e igualdade racial, rejeitando os ídolos de seus pais: o jazz de Louis Armstrong, o swing de Benny Goodman e até a voz de Frank Sinatra.
A Love Supreme condensava a experiência de um homem que enfrentara vícios, timidez extrema e preconceito. Tornou-se referência para jovens músicos que buscavam espiritualidade na arte.
Entre os herdeiros diretos de Coltrane estava Eric Dolphy, que popularizou a flauta e a clarineta baixo no jazz. Seu disco Out to Lunch (1964) influenciou profundamente Coltrane, que no ano seguinte gravou Ascension. Alguns críticos chegaram a considerar Dolphy superior tecnicamente ao mestre.
Mas o avanço do free e do avant-garde afastava o grande público, atraindo apenas uma minoria intelectualizada. Mesmo discos marcantes pareciam, para muitos, hinos de um pré-inconformismo hermético. O público jovem se voltava para o rock e suas estruturas simples.
A revista Down Beat acusava o free de criar um “antijazz” baseado no caos. Os músicos, apelidados de “niilistas da música”, pouco se importavam. Roland Kirk, por exemplo, explorava sons excêntricos com instrumentos raros como o manzello e o stritch, chegando a tocar três saxofones ao mesmo tempo. Enquanto isso, Coleman insistia em um sax de plástico e Don Cherry empunhava um trompete de bolso.
Pharoah Sanders, outro discípulo de Coltrane, e o pianista Cecil Taylor aprofundavam a estética ruidosa. Taylor, apesar de conhecer profundamente a música erudita, preferia chocar o público com ataques violentos ao piano — algo que até Miles Davis detestava.
O excêntrico Albert Ayler morreu tragicamente no East River em 1970, cercado de rumores. Já em Chicago, a cena produzia grupos teatrais e inovadores como o Art Ensemble of Chicago e a Sun Ra Arkestra. Sun Ra, que afirmava ser de Saturno, já usava eletrônicos antes de Miles e defendia improvisação total antes de Coleman cunhar o termo free jazz.
Com pouco espaço e vendas mínimas nos EUA, muitos migraram para a Europa, onde nomes como Cecil Taylor, Don Cherry, Anthony Braxton e Ayler encontraram público receptivo.
No meio desse cenário, uma exceção brasileira brilhou: o álbum Getz/Gilberto (1963), com Antonio Carlos Jobim, João Gilberto, Stan Getz, Milton Banana e Astrud Gilberto, que levou a bossa nova ao mundo. O sucesso de “The Girl from Ipanema” embalou os órfãos do jazz tradicional — mas não reconquistou a juventude.
Graças à persistência de alguns sobreviventes, o jazz ainda teria um novo fôlego antes de mergulhar em seu período mais sombrio.











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