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Como o acid jazz reinventou o gênero e conquistou os jovens dos anos 80 e 90

A cantora Cassandra Wilson / Foto: Adam McCullough/Shutterstock
A cantora Cassandra Wilson / Foto: Adam McCullough/Shutterstock

Na metade dos anos 1980, a indústria fonográfica já estava moldada para lidar com a cisão entre os românticos idealistas e os pragmáticos realistas. No novo cenário musical — fosse no universo alternativo do jazz ou no mercado milionário do rock — formaram-se duas castas distintas. Uma reunia aqueles que buscavam sucesso popular e retorno financeiro, aceitando a exploração midiática e os acordos publicitários. A outra abrigava os artistas de resistência, que rejeitavam o jabá, evitavam negociar com grandes redes de rádio e preferiam aguardar o reconhecimento pelo valor de sua obra. Em ambos os lados, independentemente de julgamentos, havia talentos de alto nível.


Mas, no final daquela década, nem mesmo o até então inabalável rock parecia ter forças para reagir à passagem do tempo. New wave, tecnopop, British pop, guitar rock, ska, hip hop, grunge, os incontáveis subgêneros do heavy metal, e até a “new bossa nova” britânica — como a do Everything But the Girl e do Style Council, este último liderado pelo guitarrista Paul Weller, admirador da música brasileira — disputavam a atenção do público. A mídia e os músicos buscavam desesperadamente novas fórmulas para manter os ouvintes interessados.


Outro desafio vinha da indústria da moda, veloz a ponto de tornar obsoleto, em dois anos, o que antes era tendência. A MTV já exercia seu poder de hipnose coletiva, elegendo ídolos, ditando padrões e definindo quem estava “no topo”. O jazz, solitário e sem apoio da grande mídia havia décadas, se via empurrado para um território de incertezas.


Foi nesse contexto que DJs de Nova York e Londres, antes vistos como figuras secundárias, começaram a revisitar o passado, fundindo batidas de rap às melodias do cool jazz. A soul music dos anos 1960 reconquistou prestígio entre jovens de 18 a 25 anos que não eram sequer nascidos quando o trompetista Donald Byrd embalava pistas misturando jazz e funk. A mistura entre a nova black music e gravações clássicas do hard bop revelou-se fresca e energizante.


Assim, discretamente, o jazz voltava a atrair a juventude nas pistas de dança. Mais de 60 anos após o fenômeno swing, filas se formavam em clubes badalados para dançar ao som de DJs como Baz Fe Jazz e Gilles Peterson. Enquanto bandas como o U2 dominavam as paradas e Madonna conquistava as massas com provocação e carisma, o público underground londrino vibrava nas festas Talking Loud & Saying Something, organizadas por Peterson, suíço de nascimento e inglês de criação. Esses eventos, quase despercebidos pelo grande público, lançaram as bases para o futuro.


Ao samplear trechos de Wes Montgomery, Jimmy Smith, Roy Ayers, Lou Donaldson e até da bossa nova dos anos 1960, Peterson influenciou rappers como Guru, que criou o projeto Jazzmatazz, reunindo nomes como Donald Byrd, Freddie Hubbard, Branford Marsalis, Kenny Garrett e Ramsey Lewis.


Em 1989, Peterson e Eddie Piller fundaram um selo para divulgar essa sonoridade, batizada de acid jazz. No início dos anos 1990, o gênero tornou-se sinônimo de som moderno e deu novo fôlego ao jazz. A lendária gravadora Blue Note, impressionada com o trabalho do programador Geoff Wilkison e do tecladista Mel Simpson, lançou em 1993 o álbum Hand on the Torch, assinado pelo projeto US3. O disco, o mais lucrativo da história da gravadora, trazia versões sampleadas de seus próprios clássicos, incluindo “Cantaloupe Island” de Herbie Hancock, rebatizada como “Cantaloop (Flip Fantasia)”, com o rapper Rahsaan nos vocais e o trompetista Gerard Presener.


Jazzmatazz, com o rapper Guru / David Redfern/Getty Images
Jazzmatazz, com o rapper Guru / David Redfern/Getty Images

A ironia era evidente: o maior sucesso comercial da Blue Note vinha de releituras eletrônicas de seu próprio acervo. Hancock, Lou Donaldson, Art Blakey, Thelonious Monk, Donald Byrd, Horace Silver e Grant Green tiveram suas obras retrabalhadas, com resultados como “Tukka Yoot’s Riddim” — derivada de “Sookie Sookie” —, segundo maior hit do álbum.


Na mesma época, o Jamiroquai, liderado por Jason Kay, unia metais sofisticados e o groove do soul jazz dos anos 1960 à batida disco no álbum Emergency on Planet Earth, conquistando tanto jovens dançarinos quanto fãs antigos de hard bop e das orquestras de Burt Bacharach e Maynard Ferguson.


O James Taylor Quartet, oriundo das noites de Peterson, reinventava o som de Jimmy Smith em grooves para órgão Hammond e revisitava trilhas como Starsky and Hutch (Lalo Schifrin) e I Say a Little Prayer (Burt Bacharach), dois sucessos instantâneos no universo do acid jazz.


Enquanto isso, o saxofonista alto Steve Coleman, com sua banda Five Elements, apresentava o movimento cultural M-BASE (Macro-Basic Array of Structured Extemporization), fundindo rap, improviso e arranjos explosivos de sopros. Seu trabalho influenciou artistas como Cassandra Wilson e Greg Osby. Já grupos como Brand New Heavies e Incognito antecipavam o drum’n’bass que agitariam os anos 1990.


O acid jazz não apenas salvou o gênero da irrelevância como também provou que, quando o passado e o presente se encontram na pista de dança, o futuro da música pode ganhar um novo ritmo.


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