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A ousadia elétrica que salvou o jazz e abriu caminho para o fusion

Wayne Shorter e Jaco Pastorius, ambos do Weather Report / Foto: Paul Natkin/Getty Images
Wayne Shorter e Jaco Pastorius, ambos do Weather Report / Foto: Paul Natkin/Getty Images

O atestado de óbito do jazz poderia ter sido assinado em 1967, quando John Coltrane, que sofria de câncer no fígado, morreu aos 40 anos, vítima de um colapso físico — resultado da vida desregrada e da timidez sufocante, que o impediu de procurar um médico. Parker já havia partido em 1955, mas seus sucessores sabiam o que fazer. Coltrane morreu e deixou uma lacuna sombria para seus descendentes.

 

Miles Davis percebeu que a venda de seus discos estava despencando e armou sua grande jogada de marketing. O trompetista procurou o chefão da Columbia Records, Clive Davis, e pediu para que não mais o promovessem como um jazzman. “Assim, meus discos voltarão a vender”, disse na época. E deu certo.

 

Para a imprensa, Miles mantinha o velho discurso agressivo: “Odeio a palavra rock e toda essa merda!”. Mas era inevitável reconhecer que o som criado por Sly Stone, pelo grupo Blood, Sweat and Tears e pelo primeiro projeto do guitarrista Frank Zappa — o grupo Mothers of Invention — já mexia com a cabeça do trompetista.

 

Miles sabia que o caminho correto teria de ser trilhado sobre uma estrada pavimentada por novas texturas e ritmos, iluminada por um novo vocabulário e sinalizada por um novo nome. O jazz, do jeito que estava sendo feito, parecia morto.

 

Durante a edificação da fase avant-garde mais promissora de John Coltrane, o trompetista conheceu quatro jovens notáveis e montou, em 1963, um quinteto inspirador para as progressões de seu jazz modal. Os quatro eram o pianista Herbie Hancock, o baixista Ron Carter, o baterista Tony Williams e o saxofonista Wayne Shorter.

 

Era a segunda grande revolução armada por Miles, que tentava encontrar uma solução para combinar a modulação do hardbop, a potência da soul music de Ray Charles, a atonalidade e intensidade de Coltrane e a simplicidade do rock.

 

O trabalho com os jovens — Tony Williams tinha 17 anos e, por ser menor de idade, impedia o grupo de tocar em certos bares — estimulava sua própria criação e o mantinha ao lado de quem compreendia o som frenético dos anos 1960. Foram necessários, porém, mais quatro anos para que o jazz rock elaborado por Miles fosse digerido.

 

O disco mais simbólico dessa fase é Miles in the Sky, gravado em 1967 e lançado em 1968, com participação de um sexto integrante convidado: o guitarrista George Benson. Nesse trabalho, já estava delineada a nova linguagem de Miles, que unia seu improviso à atmosfera psicodélica e aos acordes do piano eletrônico, associando a tensão hipnótica entre o baixo e a bateria ao comportamento econômico do cool jazz.

 

Antes de gravar In a Silent Way, em 1969, Miles já tinha como grande ídolo o guitarrista Jimi Hendrix, a quem sonhava convidar para um trabalho em conjunto. Inspirado por Hendrix e encantado com a magia eletrônica, Miles chamou três pianistas para tocar teclado: o próprio Hancock, Chick Corea e Joe Zawinul. No baixo eletrônico, contou com o versátil Stanley Clarke e, na bateria, Lenny White.


Chick Corea / foto: Shutterstock
Chick Corea / foto: Shutterstock

 O que começou a ser esboçado em Miles in the Sky desembocou em In a Silent Way, a confirmação de que o jazz estava se fundindo ao rock para permanecer vivo, criando um estilo batizado de fusion.

 

Os instrumentos elétricos tomaram conta do jazz, deixando os acústicos temporariamente de lado. Somente os mais teimosos, que buscavam recriar atmosferas antigas ou promover concertos nostálgicos, abriram mão da eletricidade. Qualquer vanguardista que se prezasse tinha a “obrigação” de carregar quilos de equipamentos para onde fosse.

 

Sob o impacto do festival de Woodstock, em 1969 — onde se apresentaram Jimi Hendrix e Sly and the Family Stone — Miles gravou o disco mais emblemático do jazz fusion, Bitches Brew, lançado oficialmente em 1970. Equipados com sintetizadores Moog, Zawinul e Corea criaram atmosferas espaciais que, se hoje soam datadas, na época eram o que havia de mais imperativo. Outra novidade foi a inclusão de percussionistas, que deram nova coloração ao ritmo cadenciado e essencial empregado pelo baterista Jack DeJohnette. No álbum, o brasileiro Airto Moreira — considerado um dos maiores percussionistas de todos os tempos — acrescentou congas, berimbaus, pandeiros e cuícas aos riffs dos baixistas Dave Holland e Harvey Brooks.

 

Bitches Brew se tornou um dos discos de jazz mais vendidos da história. Os críticos puristas e retrógrados iniciaram uma campanha contra o trabalho de Miles, que duraria até o fim de sua vida. Assim como Louis Armstrong e Nat King Cole, o trompetista foi acusado de “vender-se” ao mundo pop para ganhar dinheiro. Bem, Mozart também compunha para viver...

 

A fusão com o rock já não tinha volta. Em 1972, Chick Corea, que havia aprendido tudo o que podia com Miles, com o baterista e bandleader cubano Mongo Santamaria e com o percussionista porto-riquenho Willie Bobo, fundou o grupo Return to Forever, mesclando jazz, rock e música latina.

 

O guitarrista John McLaughlin deixou o grupo de Miles para criar a Mahavishnu Orchestra, explorando escalas orientais e, depois, fundando o grupo de indojazz Shakti, ao lado do violinista indiano Lakshminarayana Shankar.

 

Joe Zawinul, que já havia contribuído para a banda de Maynard Ferguson e para o quinteto de Cannonball Adderley, montou o mais importante grupo de jazz rock, o Weather Report, com o saxofonista Wayne Shorter e o baixista Jaco Pastorius. O grupo também contou com os bateristas e percussionistas brasileiros Dom Um Romão e Airto Moreira.

 

Nenhum brasileiro, porém, participou das históricas gravações de Heavy Weather, em 1977, vendido para mais de 400 mil pessoas em menos de um ano. Embalada pelos sintetizadores de Zawinul, a música “Birdland” virou hit e é regravada até hoje. Sua melodia simples e contagiante, o groove marcante de Pastorius e a atmosfera contemplativa criada por Shorter mostraram que era possível ser belo e original dentro do fusion.

 

Na Inglaterra, onde o rock e a indústria musical eram tão fortes quanto nos Estados Unidos, surgiram grupos que misturavam o rock progressivo ao jazz, como o Gentle Giant e o Soft Machine.

 

O movimento ganhou adeptos, mas nunca chegou às massas, apesar da constante produção de discos. Norte-americanos e ingleses pareciam outsiders do mercado musical — um prenúncio do que hoje chamamos de músico alternativo — artistas que tocavam para minorias. Anos depois, nos anos 1980 e 1990, seriam rebatizados como “independentes”.

 

Por alguma razão, boa parte da crítica sempre abençoou os “alternativos”, gerando um séquito de admiradores fiéis a músicos desprezados, que, protegidos pelo manto da música pela arte, justificavam a própria existência.


O trompetista Donald Byrd / foto: Getty Images
O trompetista Donald Byrd / foto: Getty Images

 A invasão europeia e os experimentos com música asiática e sul-americana geraram um novo termo: crossover, criado para substituir o fusion e dar mais amplitude ao jazz global que os compositores buscavam apresentar.

 

No fim dos anos 1970, Don Cherry gravava na Alemanha com o citarista Collin Walcott e o percussionista brasileiro Naná Vasconcelos a série Codona. O violinista francês Jean-Luc Ponty apresentava seu jazz rock bem arranjado ao lado de Frank Zappa e do tecladista George Duke. Em 1981, McLaughlin reuniu os violões do norte-americano Al Di Meola e do espanhol Paco de Lucia para improvisar sobre a música flamenca. O saxofonista argentino Gato Barbieri unia jazz, tango e bossa nova em Nova York — e fazia sucesso.

 

Herbie Hancock, talvez o pupilo mais talentoso de Miles, foi além ao mesclar rhythm & blues e jazz, eletrificando tudo para criar parte da base da funk music. Embora tocasse piano acústico, Hancock era fascinado pela black music de James Brown, Al Green, Isaac Hayes, Smokey Robinson, Curtis Mayfield, Jimi Hendrix e, especialmente, pelo grupo Blood Sweat and Tears e por Sly Stone. “Eu sempre pensava em como amava o trabalho de Sly Stone e sua música funk”, contou no encarte de seu mais importante disco, Headhunters, gravado em 1973.

 

Para esse trabalho, Hancock chamou o saxofonista Bennie Maupin, o baixista Paul Jackson, o baterista Harvey Mason e o percussionista Bill Summers. Ao piano elétrico Fender Rhodes e aos sintetizadores, o pianista deu ao jazz um ritmo pulsante, texturas únicas e riffs magnéticos, antecipando o som que dominaria os 15 anos seguintes. Contudo, seu groove confortável se tornaria uma arma perigosa nas mãos de oportunistas no fim da década de 1970 e início dos anos 1980.

 

Headhunters superou as expectativas e vendeu mais que Bitches Brew, tornando-se o disco de jazz mais vendido da história. É importante lembrar que, em 1964, apenas um ano depois de Miles apresentar Hancock ao mundo, o pianista havia gravado Empyrean Isles com Tony Williams, Ron Carter e Freddie Hubbard. Esse LP trazia “Cantaloupe Island”, um hardbop sincopado e magnético, fascinante pelo seu chorus de blues — o primeiro sinal de que a soul music ainda mudaria tudo.

 

Além de Hancock, o trompetista Donald Byrd vinha desenvolvendo, desde os anos 1960, a fusão entre jazz e black dance music. Seus discos A New Perspective, Mustang e Slow Drag já apontavam o caminho para unir hardbop e funk. Entre 1972 e 1974, gravou três álbuns exemplares do jazz funk: Ethiopian Knights, Black Byrd e Street Lady.

 

Seu som influenciou a banda The Crusaders, formada por Wayne Henderson (trombone), Wilton Felder (sax), Joe Sample (teclados) e Stix Hooper (bateria) — talvez o exemplo mais bem-acabado de como unir funk, soul, rock, R&B e jazz. O som dos Crusaders, por sua vez, serviria de referência para grupos mais recentes, como os Racionais MC’s.



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