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A Era do Swing: como as big bands redefiniram o jazz entre 1928 e 1945

Duke Ellington e sua orquestra / Foto: Getty Images
Duke Ellington e sua orquestra / Foto: Getty Images

A Era do Swing começou em 1928, um ano antes do colapso econômico provocado pela quebra da Bolsa de Valores dos Estados Unidos. Mas também não seria incorreto afirmar que a largada foi dada em 1927, quando Duke Ellington (1899–1974) e sua orquestra passaram a animar as noites do lendário Cotton Club, no Harlem, em Nova York. O Cotton era uma das casas noturnas mais famosas do país — controlada por gângsteres e abastecida com bebidas contrabandeadas — e atraía celebridades de todos os cantos. Ellington, compositor visionário, já apresentava ao público os elementos que moldariam o swing: arranjos populares e elegantes, com a agressividade refinada das escalas de blues, liderando uma orquestra com mais de 15 músicos.


Podemos, inclusive, retroceder um pouco mais e afirmar que a semente do swing foi plantada em 1924, quando o saxofonista Don Redman criou os primeiros arranjos para o maestro Fletcher Henderson, dando início ao duelo entre metais e palhetas e incorporando a estrutura de “chamada e resposta” típica do blues. O diferencial de Redman estava na capacidade de abrir espaços para improvisos sofisticados, integrados a uma densa textura orquestral.


Gentil e refinado, Henderson montou uma banda incomum para a época, com nove integrantes — um número elevado para os padrões do jazz dos anos 1920. Seu solista principal era ninguém menos que Louis Armstrong, o único capaz de criar melodias espontâneas sobre estruturas harmônicas pré-definidas com velocidade e imaginação.


Inspirado pelo talento de Armstrong e atento ao estilo mais adocicado de Paul Whiteman, maestro branco que buscava suavizar o jazz, Henderson e Redman deram forma aos alicerces do swing — e ainda impulsionaram um instrumento até então considerado impróprio para o jazz: o saxofone. O primeiro grande mestre desse instrumento, Coleman Hawkins, era solista da banda.


Enquanto isso, um jovem clarinetista de Chicago chamado Benny Goodman (1909–1986) se mudava para Nova York em 1929 e se encantava com o som de Henderson. Impressionado com a força e a coesão sonora da banda, Goodman logo pediu a Henderson e Redman que escrevessem arranjos para ele também.


Em pouco tempo, Goodman se tornaria um dos artistas mais populares da história do jazz. Seus shows arrastavam multidões de jovens, especialmente os fãs da dança shag. Durante os anos 1930, as filas em frente ao Teatro Paramount, caóticas e mal organizadas, só encontrariam equivalente décadas depois, com a febre por Elvis Presley e The Beatles.


Famoso e influente, Goodman foi um dos primeiros músicos brancos a romper a barreira da segregação racial ao contratar instrumentistas negros como o pianista Teddy Wilson, o vibrafonista Lionel Hampton e o guitarrista Charlie Christian. A partir de 1935, liderando pequenos grupos e ao lado de nomes como o baterista Gene Krupa, ele deu início a uma nova transformação do jazz — antecipando o que só seria reconhecido formalmente anos depois, com o surgimento do bebop.


Logo, bandas de swing floresciam por todo o país. De nomes tradicionais como Tommy Dorsey, Jimmy Lunceford, Artie Shaw e Glen Gray, aos mais comerciais, como Glenn Miller, Bob Crosby (irmão do cantor Bing) e Harry James, até os mais ousados e sofisticados, como Woody Herman e Chick Webb — este último um baterista franzino, corcunda e doente, mas incrivelmente generoso e virtuoso. Foi com Webb que surgiu Ella Fitzgerald, aos 16 anos, cantando scats e imitando, com a voz, o trompete de Armstrong.


A orquestra de Benny Goodman / Charles Peterson/Getty Images
A orquestra de Benny Goodman / Charles Peterson/Getty Images

Além de Henderson e Goodman, dois outros nomes se destacaram como pilares do swing: Count Basie e Duke Ellington.


William “Count” Basie (1904–1984) nasceu em Red Bank, New Jersey, mas foi em Kansas City que apresentou sua nova linguagem, como pianista da banda de Bennie Moten no fim da década de 1920. Em 1935, já liderava seu próprio grupo, acompanhado pelo cantor Jimmy Rushing e pelo jovem baterista explosivo Joe Jones. Pouco interessado nas convenções da música erudita, Basie apostava no ritmo: quatro batidas por compasso, improvisos sobre estruturas de blues e um senso de leveza que encantava. Um de seus solistas era o inesquecível Lester Young, saxofonista lírico e introspectivo, tão suave quanto incompreendido.


Duke Ellington era um caso à parte. Compositor, arranjador, pianista e líder de banda, era difícil encaixá-lo em qualquer rótulo. Sua música transitava entre o sagrado e o secular, entre o blues e a música de concerto, entre a improvisação e a sofisticação formal. Para muitos, ele era um compositor erudito que apenas usava instrumentos de jazz. Criou peças sacras, trilhas para cinema e balés, canções populares e obras-primas instrumentais — sempre com uma assinatura inconfundível: o estilo ellingtoniano.


Mesmo com o colapso econômico de 1929, Ellington seguiu em alta. Tinha público fiel, recursos e prestígio para manter sua orquestra rodando pelos Estados Unidos — às vezes com mais de 13 músicos em um único vagão. “O ritmo metálico do trem me alivia”, dizia. Suas composições — como Solitude, Mood Indigo e Sophisticated Lady — tornaram-se standards regravados ao redor do mundo.


Ellington se apresentou na Europa, conquistou fãs na Ásia e América do Sul, vendeu mais de 30 milhões de discos e acumulou prêmios ao longo da vida. Em 1943, estreou no Carnegie Hall, com a monumental suíte Black, Brown and Beige — um poema sinfônico de 50 minutos que redefiniu o status do jazz como arte elevada.


Entre seus principais solistas estavam Harry Carney (sax barítono), Johnny Hodges (sax alto), Paul Gonsalves (sax tenor) e Cootie Williams (trompete). Mas seu parceiro mais duradouro foi o pianista e compositor Billy Strayhorn, autor do clássico Take the ‘A’ Train e colaborador de Ellington por quase três décadas.


Enquanto isso, outros solistas brilhavam por conta própria, fora das big bands. O pianista Fats Waller (1904–1943), ídolo de Count Basie, era também humorista e showman. Capaz de tocar fugas de Bach e compor hits como Honeysuckle Rose e Ain’t Misbehavin’ em menos de uma hora, Waller encantava pela irreverência e pelo talento descomunal.


Outro gênio do piano era Art Tatum (1909–1956), nascido em Toledo, Ohio, mas reconhecido em Nova York como um prodígio absoluto. Técnica impecável, velocidade assombrosa e um vocabulário harmônico tão denso que, por muito tempo, foi subestimado por críticos que o viam como apenas um virtuose. Hoje, é celebrado como um dos maiores pianistas do século XX.


Billie Holiday ; Michael Ochs/Getty Images
Billie Holiday ; Michael Ochs/Getty Images

Em 1940, após integrar a banda de Lionel Hampton, Nat King Cole (1917–1965) formou seu próprio trio. Pianista original e comparado a Teddy Wilson, Cole trilhou um caminho singular: apostou na voz suave e nas canções românticas, tornando-se uma estrela do showbiz americano. Por isso, foi alvo de preconceito dentro do jazz — injustamente excluído por músicos do bebop, que ignoraram sua sólida formação e sensibilidade pianística.


Mas foi Billie Holiday (1915–1959) quem ultrapassou todas as fronteiras. Incentivada pela própria mãe, que a empurrou para a prostituição, Holiday começou a cantar ainda criança. Sua voz dissonante, melancólica e absolutamente pessoal conquistou Goodman, Shaw, Basie, Lester Young e qualquer outro músico que ousasse acompanhá-la. Considerada por muitos a maior cantora de jazz de todos os tempos, morreu pobre, explorada e viciada em heroína — sem saber, talvez, o tamanho de seu impacto artístico.


A chamada Era do Swing, oficialmente datada entre 1928 e 1945, foi muito mais que um estilo musical. Foi um estado de espírito — uma resposta sonora à crise econômica, à guerra e à necessidade de alegria. Suas regras não diferiam tanto do jazz dos anos 1920, mas os arranjos ficaram mais complexos, as bandas maiores e o impacto, mais profundo.


Uma big band de swing exigia no mínimo quatro trompetes, três trombones, cinco saxofones e uma seção rítmica com piano, contrabaixo, guitarra e bateria. O resultado era uma explosão sonora de precisão e balanço, combinando os rigores da música clássica com a expressividade do blues — tudo para garantir algumas horas de prazer em meio à dureza da vida.

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