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Antes do Weather Report, Jaco Pastorius já era um revolucionário

Jaco Pastorius / Foto: Ross Marino/Getty Images
Jaco Pastorius / Foto: Ross Marino/Getty Images

A necessidade é a mãe da invenção. E, às vezes, também da genialidade. Jaco Pastorius revolucionou o baixo elétrico nos anos 1970 com seu primeiro disco solo e, depois, tocando no grupo Weather Report, nome fundamental do jazz-rock. Mas, para isso, ele primeiro reinventou fisicamente seu próprio instrumento no dia em que teve a ideia de retirar todos os trastes de seu Fender Jazz Bass ’62.


Jaco tinha entre 19 e 20 anos quando deu uma de luthier em seu Fender. E seu histórico até então já mostrava que ali havia um talento indomável, disposto a construir seus próprios caminhos em vez de seguir outros pré-prontos.


Nascido na Pensilvânia em 1951 e criado na Flórida, Jaco mergulhou na música na adolescência. Já tinha o apelido de Jaco. Há algumas versões diferentes sobre a origem, mas a mais comum é que viria de um árbitro de beisebol chamado Jocko Conlan. E a grafia “Jaco” veio de um bilhete escrito errado por um amigo.


Começou como baterista e já integrou bandas amadoras, mas um pulso quebrado acabou com essa trajetória. Logo ele encontrou seu verdadeiro instrumento, o contrabaixo. Primeiro, um acústico enorme, que depois ele trocou por um baixo elétrico, um Fender Jazz Bass ’60. Logo depois, viria o Fender Jazz Bass ’62.


“Ele era baterista quando o conheci… Mas, quando ele começou a tocar baixo, progrediu tão rapidamente que não dava para acreditar. Jaco tinha o dom”, disse o amigo Scott Kirkpatrick no livro Jaco: The Extraordinary Tragic Life of Jaco Pastorius, de Bill Milkowski.


Ainda amador, Jaco já tinha a petulância e a autoconfiança características que o faziam se apresentar para alguém como: “Sou John Francis Pastorius III (seu nome completo), o melhor baixista do mundo”. Que o mundo ainda não o tivesse ouvido era mero detalhe.


Aos 17 anos, ele assistiu a um show de uma banda chamada Nemo Spliff e ficou impressionado com a técnica do baixista Carlos Garcia, que abafava as cordas com a mão esquerda e obtinha um som cheio de balanço e percussivo.

Jaco dedicou-se a treinar essa técnica à exaustão, dominando um estilo funkeado pelo qual se destacaria muitos anos mais tarde.



Tornar-se um mestre na técnica de abafamento percussivo não bastava para Jaco. Ele queria escorregar notas como num contrabaixo acústico, fazer o baixo elétrico falar como um ser humano, tocar com um timbre mais agudo e mais ousado que a maioria dos baixistas que ouvia, tirar harmônicos e elaborar melodias com eles.


Para tudo isso, a solução seria um baixo sem trastes no braço, igual aos dos contrabaixos acústicos. Só tinha um probleminha: ninguém fabricava baixos elétricos sem trastes.


Se ninguém fabricava, Jaco tratou de resolver o problema por conta própria, por volta de 1970 ou 1971. As versões também variam (algumas delas saídas da própria boca de Jaco, que mudava ligeiramente a história a cada entrevista), mas ficou consagrado que ele usou uma faca de passar manteiga para retirar, um por um, os trastes de seu Fender Jazz Bass ’62.


Nos sulcos abertos, Jaco aplicou massa plástica para madeira. Depois, cobriu a escala com camadas de resina epóxi marítima, um material usado para selar cascos de barco.


Ali nasceu um novo instrumento, batizado por Jaco de “Bass of Doom” (Baixo da Perdição). E, horas depois, ele estreou o velho/novo baixo numa apresentação.

“Naquela noite ele tocou melhor do que jamais tinha tocado. Ele escorregava notas e fazia tudo o que não podia num baixo com trastes”, diz o colega Charlie Brent na biografia de Milkowski.


Nessa época, Jaco estava na banda de soul Tommy Strand & The Upper Hand, que fazia covers de Sly & The Family Stone e Aretha Franklin, entre outros artistas. Jaco cada vez mais atraía atenções com seu funk tocado sem recorrer ao slap típico de baixistas desse estilo. Suas linhas de baixo eram inovadoras, diferentes.


Jaco também aceitou trabalhos em bandas que tocavam em cruzeiros pelo Caribe, o que acrescentou ao seu idioma de contrabaixo influências de calypso e reggae.


Em 1972, ele topou uma empreitada mais fixa: um convite para tocar com Wayne Cochran & The C.C. Riders, uma banda de certo renome no circuito soul americano que contava com 14 instrumentos de sopro para causar um impacto mais bombástico. O líder Wayne Cochran ostentava um imaculado e enorme topete platinado que lhe dava um look de versão branca de James Brown.


Foi com Cochran que Jaco experimentou a estrada para valer, mesmo que acompanhado da mulher e da filha pequena. Na época, Jaco também era 100% avesso a qualquer droga ou bebida alcoólica. Se precisava relaxar, ele tocava seu baixo. Parecia que tinha nascido com ele.



Jaco passou 14 meses com a banda de Cochran. Prosseguiu carreira com outras bandas. Fez amizade com o guitarrista Pat Metheny, e ambos chegaram a gravar um álbum juntos em 1974.


Em 1975, achou-se pronto para gravar um álbum solo e conseguiu contrato com o selo Epic, da Columbia Records. Pouco antes de entrar em estúdio, Jaco foi ver um show em Miami do Weather Report, um dos primeiros grupos a se destacar no cenário fusion.


Já foi falado aqui que Jaco era petulante. Pois foi petulante e meio naquela noite. Foi ao camarim da banda e se apresentou ao tecladista Joe Zawinul, uma espécie de líder do Weather Report (não era pouca coisa, considerando que o grupo contava também com o saxofonista Wayne Shorter, já famoso por ter sido parte do segundo quinteto de Miles Davis nos anos 1960).


Jaco já lançou seu cartão de visitas verbal: “Sou John Francis Pastorius III. Sou o melhor baixista do mundo”. Para ele, pouco importava que o Weather Report já tivesse um baixista, Alphonso Johnson.


Impressionado com a cara de pau do rapaz, Zawinul perguntou se ele tinha uma fita demo que pudesse lhe entregar. Tinha. Depois, quando ouviu Jaco tocando, Zawinul se deu conta de que o rapaz poderia ter razão ao se intitular “melhor do mundo”.


Jaco mandou depois a Zawinul a primeira mixagem de seu álbum solo, gravado em outubro de 1975 e lançado em abril de 1976, intitulado apenas Jaco Pastorius. O LP abria com um cover de “Donna Lee”, de Charlie Parker (com autoria creditada a Miles Davis).


Mas o que impressionava no disco solo era uma composição própria de Jaco, “Portrait of Tracy”, inspirada por sua primeira esposa, Tracy. Uma faixa de pouco mais de dois minutos em que o artista montou a melodia totalmente em cima de harmônicos que brilhavam como carrilhões. Para sustentar a estrutura, ele também batia as cordas graves ao mesmo tempo.


“Portrait of Tracy” foi dissecada por inúmeros baixistas de jazz e rock que vieram depois e declararam sua enorme admiração por Jaco.


Mas foi o Weather Report, com potencial comercial muito maior que o de um discreto álbum solo de um baixista, que consagrou Jaco como “melhor baixista do mundo” aos olhos de milhares. E mais: fabricantes de instrumentos começaram a fazer baixos elétricos sem trastes.


Zawinul chamou Jaco para participar do álbum Black Market, lançado em 1976, no qual as funções de baixista foram divididas entre ele e o demissionário Alphonso Johnson. Pastorius toca em duas das sete faixas do álbum.


A estreia em tempo integral foi no álbum Heavy Weather, de 1977, em que Jaco arrasa no que seria o maior clássico do Weather Report, “Birdland” (segundo Pastorius, a gravação foi feita em um único take).


O lado negativo foi que, em sua permanência no Weather Report até 1982, Jaco começou a abusar de drogas e álcool, abandonando totalmente sua caretice anterior.


Combinando isso com seu temperamento já difícil, o baixista passou a ter um comportamento errático e impulsivo. E talvez isso tenha levado à sua trágica morte em 1987, após ser espancado por um porteiro de clube em Fort Lauderdale, na Flórida. Mas essa história triste fica só nisso, não precisa ser contada em detalhes. Melhor mesmo é celebrar o homem que reinventou seu instrumento para dar o máximo de seu talento ao mundo.

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