Do MP3 ao Nu-Jazz: Como a fusão com a música eletrônica redefiniu o jazz
- Vinicius Mesquita

- 17 de abr.
- 3 min de leitura

No início do século, a sensação de saturação era tão intensa que tudo parecia antigo ou repetitivo – basta lembrar as maiores estrelas do showbiz do jazz, como o cantor e guitarrista John Pizzarelli e as cantoras e pianistas Diana Krall e Norah Jones. As novidades estilísticas rarearam, e qualquer músico contemporâneo inconformado com a simples repetição de standards tinha de buscar texturas originais nos computadores, garimpando pequenos fragmentos de singularidade. Afinal, para a geração internet – dos arquivos MP3, dos downloads pelo KaZaA ou Soulseek e dos estúdios caseiros – as ferramentas estavam ao alcance de todos.
Mesmo assim, muitos críticos, jornalistas e parte do público rejeitavam a música concebida com apoio de computadores, apoiando-se em clichês frágeis. A tecnologia já influenciava tanto o dia a dia dos músicos que parecia impensável exigir de um jovem compositor, em pleno auge criativo, a renúncia a tais recursos. Seria como pedir a B. B. King que tocasse apenas um banjo feito de caixas de papelão.
O pianista Matthew Shipp defendia que a única forma de manter o jazz vivo era fundi-lo de vez com a música eletrônica. Como um dos precursores da jazztrônica – ou nu-jazz –, ele afirmava: “O jazz está em transformação. E precisa disso, ou irá morrer.” Ao lado de colegas como o pianista Brad Mehldau e o trompetista Dave Douglas, Shipp explorou computadores, sequenciadores e samples, usando overdubs para romper velhas estruturas e criar novas harmonias.
No álbum Largo (2002), Mehldau explorou à exaustão os sintetizadores, criando um trabalho repleto de ideias renovadoras. Ele conseguiu o improvável: melodias inéditas e combinações sonoras capazes de emocionar até os ouvintes mais exigentes. Sua técnica modal, herdeira de Bill Evans, foi misturada ao piano clássico de Franz Schubert e Johannes Brahms, somada à essência melódica dos Beatles e ao peso visceral do Radiohead – resultando numa sonoridade robusta e pessoal.

A cena também foi enriquecida por nomes como Jason Moran e Fred Hersh – este último alcançando a maturidade artística após 1994, quando participou do álbum Last Night When We Were Young, projeto beneficente em prol das vítimas de AIDS. Moran, por sua vez, bebia em fontes tão distintas quanto Duke Ellington, Michael Jackson, Milton Nascimento, Public Enemy, Björk, Robert Schumann e Afrika Bambaataa: “Essa liberdade ajuda a composição e estimula a criatividade”, dizia.
O trio The Bad Plus – Ethan Iverson (piano), Reid Anderson (baixo) e David King (bateria) – trazia uma energia juvenil associada ao rock, visual calculado e atitude irreverente. Ex-roqueiros por duas décadas, mergulharam no jazz do século 21, misturando Nirvana, Blondie, Black Sabbath e John Coltrane.
Da França, o trompetista Erik Truffaz gravou trabalhos visionários como Mantis e The Walk of the Giant Turtle, fundindo Miles Davis, Jimi Hendrix, Led Zeppelin e hip hop. A multiplicidade de estilos parecia ser a rota inevitável: um jazz de vanguarda reconhecível não mais pelas rupturas bruscas, mas pelo refinamento – como a fusão das programações eletrônicas gélidas com execuções instrumentais cheias de calor.
O francês Rubin Steiner inspirou-se na complexidade harmônica de John Coltrane e Charles Mingus para revestir de personalidade suas produções eletrônicas, batizando-as com títulos como An Interlude for Charles Mingus e Some Strings for John Coltrane. Já o duo Air – Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel – levou ao extremo a estética lounge com Moon Safari (1998), antecipando a segunda geração da música eletrônica que fascinaria jazzistas.
Nos EUA, Madlib – sobrinho do trompetista Jon Faddis – revisitou clássicos da Blue Note em Shades of Blue (2003), misturando jazz com hip hop e outros gêneros. O movimento também contou com grupos e artistas como Tied & Tickled Trio, Jazzanova, Cinematic Orchestra, Spring Heel Jack, Bugge Wesseltoft, Sidsel Endresden, Chicago Underground, Prefuse 73, The Detroit Experiment, Laurent de Wilde e até o veterano Bob Belden, que defendia que o drum ’n’ bass dava ao nu-jazz uma nova forma de dialogar com o bebop.
Mais de um século após seu nascimento, o jazz continuava a enfrentar críticas contra sua mistura de estilos – acusada por alguns de “ferida aberta”. Mas a inquietude e a metamorfose constante seguem sendo as forças que o mantêm vivo, híbrido e eternamente em mutação.





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